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sexta-feira, 27 de julho de 2012

Baba de Olho

Queria ter te sufocado num abraço de ódio, queria ter te apertado com raiva. Queria ter arrancado o seu lábio com uma mordida antes de te deixar partir.
Mas tudo o que consegui foi dar um abraço débil e um beijo encharcado de sal e baba de olho.

terça-feira, 3 de julho de 2012

A dois

- Uma mesa para dois.
Ela caminha adiante e ele observa os quadris valsando de um lado para o outro. Aproxima-se e - enquanto todos vigiam todos para que todos não façam as coisas que todos gostariam de fazer - enche a mão com bunda recebe de volta um olhar de reprovação divertido.
Poderia ser o quarto encontro ou o décimo, trigésimo ou o último de todos. Não acho que seria diferente. Sentariam um ao lado do outro e conversariam como velhos amigos, se atentariam aos movimentos um do outro como dois desconhecidos, riram, trocariam olhares e sim, também ficariam em silêncio. Mas o mais importante de tudo, estariam por querer estar. Seriam por querer ser. Ficariam por querer ficar. Permaneceriam por querer permanecer. Continuariam por querer continuar.
Se fosse para ser uma lembrança, seria como a lembrança do primeiro algodão-doce que se tem em memória: parece que vem do nada, cresce a partir de pequenas plumas que não seriam nada sem um contexto e só pára se o moço do algodão-doce assim decidir.E, por fim, tem gosto de vontade e textura de pensamento que fica grudado.

sábado, 27 de agosto de 2011

As garras, o sal, o vinho

Os pés na areia e a cabeça nas memórias. Todas aquelas cenas com o tempo incerto correm. São só imagens, algumas coloridas, outras pálidas. Mas as piores são as imagens vazias, sem luz, sem ar: o breu casado com o sufoco.
Na pele o Sol aquece, no ventre a noite congela, encolhe, espreme, corrói, domina. São palavras pesadas, não precisam de ligação, apenas precisam ser arremeçadas na folha de papel em sua forma bruta, exatamente como a lembrança.
O presente nunca dói, mas no momento em que o tempo da seu passo a ferida golpeia, rasga.
Instante precioso esse que liga os tempos, a brecha entre a ação e o arrependimento.
A tinta risca com força para prender o instante entre as páginas e não se fala mais nisso.

"...mas eu só digo o que quero, e só quero falar das saudades e dos remorsos." Machado de Assis

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Carrossel de Vida

Ando nessa vida como quem está fadado a um carrossel eterno, carrossel de sonhos, carrossel de música, carrossel de pessoas, carrossel de vida.
Até que os sonhos sejam tocados, a música pare e a fila convide outras pessoas para girar nessa roda.
Sou aquela que fica para mais uma volta.
O tempo passa, mas sempre fico para a próxima, para ver se a música muda, se conquisto mais um desejo, se conheço novos ou se abraço os velhos, se cabe mais um.
Quando a última nota toca, já sinto saudades, mas quando a última nota toca...
Deixo que toque.

sábado, 7 de maio de 2011

De Mudança

A campainha sempre toca, ao abrir a porta fui surpreendida por sorriso e olhar cativantes. Não precisou falar. Eu já entendi. As malas, vazias de matéria e cheias de lembrança, estavam prontas. Coloquei o pé para fora, sentindo a certeza. Era hora.
Deixei tudo como estava: o compasso três por quatro ainda alimentando os salões, as partituras incompletas ainda sobre a escrivaninha, o vestido escolhido para a noite aguardava em cima da cama, o banquete servido, a batuta aguardava o toque... As máscaras. Todas. Todas ficaram. Estava preparada.
Parti. Deixei os portões abertos, abertos para a minha memória poder voltar.
Retribui o sorriso mais puro. Olhei para cada um deles e finalmente dei o passo. Com a cabeça voltada para frente, seguimos. Seguimos para a verdade. Fomos para ela rindo, dançando, cantando, levando a Alegria para quem mais a quisesse.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Sem palavras

Eu fiquei olhando, como sempre: só olhando. Olhei os degraus, olhei o portão fechando, olhei os passos, olhei o rosto que não virou, sabia que não ia virar, mas olhei. Olhei, olhei, até olhar só o vazio. O vazio que eu deixei em mim, o vazio que eu deixei nele. Eu.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Para Não Esquecer

Não se preocupe, desta vez sou eu mesma quem escreve. Eu, a que põe palavras nas bocas, nos pensamentos, nos rascunhos das personagens.
Traço estas letras com força para marcar, para nunca esquecer. Que você nunca me abandone no sótão da sua cabeça, não me esqueça.
Não se esqueça deste momento que eu não me esqueço do seu sorriso. Não se esqueça das nossas alegrias que eu não me esqueço do que você disse (ah, vai ser difícil, você sabe...).
Temos tantas lembranças, tantos contos, tantos pontos... Tantos toques, tantos abraços: abraço de vergonha, abraço de sabor, abraço de lágrimas, abraço de desculpas. Abraço. Abraços.
Agarro-me a tudo isso, sugo cada beijo — até mesmo os mais amargos— para guardá-los um a um na memória. Guardo tudo, as guardo as cartas, os guardo os olhares, as guardo as palavras. Marco-as na folha de papel porque são tantas e não quero esquecer uma. Nem uma. Nenhuma.