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sexta-feira, 27 de julho de 2012

Baba de Olho

Queria ter te sufocado num abraço de ódio, queria ter te apertado com raiva. Queria ter arrancado o seu lábio com uma mordida antes de te deixar partir.
Mas tudo o que consegui foi dar um abraço débil e um beijo encharcado de sal e baba de olho.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A verdade além do pensamento

Abriu a boca e tornou a fechar. Nenhum som. Nada.
Eis o que torna o dizer tão difícil: quando só na cabeça as memórias são simples, podem trazer um incômodo, talvez até dor, é fato. Mas ainda assim, são apenas memórias, só pensamentos. Estamos acostumados a lidar com os pensamentos, é fácil esquece-los, distraí-los com preocupações banais da rotina.
Mas a palavra... a palavra é um golpe, são facas enfiadas nas entranhas e torcidas com ferocidade. A palavra é violenta, mas nada se compara ao som de ouvi-las saíndo da própria boca. Surpreendi-me muitas vezes com o som da minha voz. Gosto de tentar tratar dos assuntos com clareza, com força não de quem não se importa, mas com força de quem supera. Pois é, surpreendo-me ao ouvir um sussurro trêmulo, de quem desaba com um sopro. Eu sei e você sabe: a decisão de falar é a certeza do pensamento, mas quando as palavras rompem o silêncio, toda aquela certeza dos fatos torna-se real. Já era real para o mundo, só não para você, só não para mim ou para quem quer que seja o dono da voz.
E não tem volta.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Oco

Peço desculpas aos grandes estudiosos da anatomia e da fisiologia pela ignorância, mas juro que estou oca.
Falta-me o estômago para aguentar.
Caí e perdi o fôlego, preciso respirar, mas onde está o meu pulmão? Acho que perdi os ossos junto, porque não consigo me levantar.
De tanto que a fome me falta, foi-se minha carne.
Foi-se meu coração também, mas disso eu não sei, foi o que me contaram. Ainda não me fez falta.
Se o cérebro for mesmo o responsável por interpretar estímulos, talvez ele também esteja se esvaindo, junto com todo o resto. Não há dor, não vejo, não penso, não quero.
Mas aí é morte, né? Sem coração, sem cérebro. Apenas esse corpo oco jogado.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A Fita Rebobinada

Se você me da licença, meu personagem de hoje é masculino. Coloco nele toda a inocência, todas as dúvidas e todas as fantasias. Veja, essa característica é importante: o personagem questiona a vida com tanta inocência que para ele o óbvio é surreal aos olhos da gente grande. Vou parar de chama-lo de personagem, assim parece um instrumento. Não, ele tem vida. Felipe.
Quanto ao cenário... preciso de uma sala de estar com um tapete grande no chão. Lembrando que grande é relativo. Para a criança da história era grande, como tudo na sala. A televisão quase ocupava a parede inteira sobre o armário que por vezes era escalado numa aventura. O sofá tinha enormes botões no centro de cada almofada. Bom, isso pouco importa, vamos à ação.
Deitado sobre uma pilha de fitas de vídeo, Felipe terminava de assistir “O Rei Leão”. Logo que as letrinhas começavam a passar na tela, ele se esticava para rebobinar. Odiava rebobinar, mas era um momento solene, via o Simba deixar de dar o rugido, desistir da caminhada pomposa sobre a Pedra do Rei. Tudo caminhava para trás, as palavras deixavam de ser ditas, Timão e Pumba saíam de cena, Mufasa deixava de estar morto. O menino baixava os olhos da tela para coloca-los nos números. O tempo corria para trás, até os bichos se recolherem e o sol desaparecer. 00:00:00.
Se quisesse acelerar, também podia, assim pulava as partes chatas. Tirou a fita de vídeo e ficou olhando para dentro do buraco. Talvez pudesse fazer da sua própria vida uma fita. Se a colocasse lá dentro, poderia acelerar, poderia ver como seria depois que crescesse. E depois disso, se tudo ficasse chato, se a saudade batesse (como muito viu acontecer com seus pais), poderia rebobinar tudo de novo.
00:00:00.



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Mamãe-filhinha

Mamãe-filhinha é uma brincadeira simples onde uma criança atua como mamãe e outra como filhinha. Simples. Era a minha favorita. Minha irmã mais velha não gostava muito, mas era sempre a minha dupla e depois que a brincadeira começava não fazia mais diferença.
Não lembro direito do começo das nossas histórias, tampoco do desenrolar delas. Sei que o enredo era muito bem discutido como se estivéssemos realmente traçando o destino de duas pessoas. Tão fácil era mandar e desmandar naquelas vidas marionetes das nossas personagens.
O que eu lembro e lembro muito bem é do desfecho. Este era preparado com muita cautela, sempre exatamente da mesma forma. Era o elemento crucial na nossa brincadeira. Le grand finale: uma das duas fazia o papel de médico e decidia que ou a mamãe ou a filhinha tinha que morrer na cadeira elétrica. Isso era essencial. E quem restava sozinha, num final trágico sentava na cadeira e começava a se debater em choques até que caísse morta, junto do outro corpo. Terminava então com os dois corpos caídos no chão. FIM

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

À Espera

Seria mais fácil ter nascido planta. Crescido árvore. Morrer terra.
Ser gente é complicado. O grande objetivo da natureza – a propagação da espécie – é um mero complemento, para alguns, um inconveniente. Importante mesmo é não apenas atender às vontades individuais, mas principalmente responder às expectativas de toda a gente.
Quando digo gente, digo toda a sociedade, partindo do mundo todo, reduzindo a um país, uma região, uma classe social, uma família, um lar.
Quem nasce já ganha um nome, uma cor e um brinquedo. E antes ainda de nascer, os pais já esperam que seus filhos sejam fisicamente saudáveis, esperam às vezes já algumas qualidades. Que eles gostem de ler, que eles sejam lindos, que gostem de estudar, que sejam aventureiros, que gostem de esportes...
É assim o tempo todo. Claro que se pode escolher, sempre temos escolhas. Aliás, é tão bonitinho quando ele fala que não gosta de carrinhos, só de caminhãozinho...
Somos diferentes, é óbvio que somos. Mas não muito. Tem aqueles que atendem a todas as expectativas, tem uns que vão além, e tem aqueles que decepcionam, ultrapassam o limite incerto entre ser diferente dentro da “normalidade” e ser diferente de maneira incômoda.
É assim que as pessoas julgam umas às outras. Eu faço muito disso também, sempre na verdade. Esperam bastante de mim. Eu também espero dos outros.
Esperaram que eu fosse uma menininha... Como as pessoas dizem?... “de família”. Esperaram que eu fizesse direito para ser juíza. Esperaram que eu gostasse de estudar. Esperaram que eu fosse heterossexual – que alívio quando trouxe o meu primeiro namoradinho para casa. Esperaram que eu fosse sempre muito educada. Ah, mas lembro muito bem que na quarta série esperaram que eu fosse o futuro. É uma grande responsabilidade para a gente de 9 anos... À espera... Esperam ainda que eu me forme doutora. Esperam que eu me case e tenha filhos correndo pela minha casa. Esperam que eu seja muito bem sucedida. E, por fim, esperam que eu morra uma velhinha generosa, humilde e ainda assim com o status de quem agrada à espera.
Nascer gente. Crescer gente. Morrer gente.
Seria mais fácil ter nascido planta.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

De Cabeça Para Baixo

Quando eu era uma criança desgrenhada e chorona, aprendi que o nosso planeta era redondo. Aprendi assim porque assim me afirmaram. Estranho para mim. Ao ver o globo terrestre logo quis localizar o Brasil, olhei para o pedaço recortado de terra e com os olhos coloquei a minha família lá. Não fez sentido algum, eu estava de pé e isso era real para mim, mas naquele teco de bola eu me vi deitada. Que mentira! Como deitada e de pé ao mesmo tempo? Logo pensei nos coitados que moravam "embaixo": vermelhos de tanto ficar de ponta-cabeça.
Então percebi que eles não só viviam de cabeça para baixo, como também estavam perto do inferno. Tão injusto! Os países de cima podiam ficar de pé e perto do céu...
Países de cima. Então se eu voasse, se eu seguisse em direção ao céu, alcançaria o topo da bola. E se cavasse, quem sabe chegaria à Antártida. Sabia que lá tinha gelo, mas gelo? Perto do inferno?
Foi um peteleco violento na caxola.

sábado, 27 de agosto de 2011

As garras, o sal, o vinho

Os pés na areia e a cabeça nas memórias. Todas aquelas cenas com o tempo incerto correm. São só imagens, algumas coloridas, outras pálidas. Mas as piores são as imagens vazias, sem luz, sem ar: o breu casado com o sufoco.
Na pele o Sol aquece, no ventre a noite congela, encolhe, espreme, corrói, domina. São palavras pesadas, não precisam de ligação, apenas precisam ser arremeçadas na folha de papel em sua forma bruta, exatamente como a lembrança.
O presente nunca dói, mas no momento em que o tempo da seu passo a ferida golpeia, rasga.
Instante precioso esse que liga os tempos, a brecha entre a ação e o arrependimento.
A tinta risca com força para prender o instante entre as páginas e não se fala mais nisso.

"...mas eu só digo o que quero, e só quero falar das saudades e dos remorsos." Machado de Assis

segunda-feira, 7 de março de 2011

A campainha toca. É a música? Pode entrar, fique à vontade. Queres bailar? Ela não nega. Mas sou péssima dançarina. Não se preocupe. Quem se importa com isso? Dancemos só por dançar. Eles dançaram.

A campainha toca. São as fantasias? As estava esperando. Sintam-se em casa. Qual queres? Não preciso dizer: escolheu a máscara. A mais colorida, por favor. Agora sim. Temos a música. Temos as cores.

A campainha não precisou tocar. São os convidados. A química fala por eles. Assim não os quero. A química age por eles. É só hoje. Esperaram tanto. Esperaram hoje por muitos dias. E agora? Vamos todos ser inconsequentes hoje. Que tal?
Aqui não. Ficou sozinha. Só ela. Só a música. Só as cores.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Elas que vêm de dentro

Escrevo as palavras e não me canso de apagá-las. As notas saem, mas o som não. Tudo ecoa na minha cabeça, mas só dentro dela. Misturo tudo, fazendo parecer um aglomerado único, mas não tem nada de único, tem o desespero, tem a ansiedade, tem a vontade, tem o sonho e o real. O real. O real dói.
Quero o vazio de novo, aquele vazio e nada mais, nada de notas que mudas, nada de palavras invisíveis. Quero não merecer para não doer a decepção.
Mais do que tudo, quero aqueles textos coloridos de castelo, músicas e máscaras. Cansei desses escuros, pintados de palavras amarradas e vomitadas da cabeça, que ninguém entende, e nem precisa ler, são só palavras jogadas no papel, confusas porque vêm de dentro.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Sem palavras

Eu fiquei olhando, como sempre: só olhando. Olhei os degraus, olhei o portão fechando, olhei os passos, olhei o rosto que não virou, sabia que não ia virar, mas olhei. Olhei, olhei, até olhar só o vazio. O vazio que eu deixei em mim, o vazio que eu deixei nele. Eu.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Enterro

Sabe, esqueçam-me, esqueçam-me todos vocês. Vocês que me trancaram e saíram pelo buraco da fechadura. Deixaram que a memória apagasse os nossos risos. Tantos risos. Agora diluídos ao vento. Nada mais são que ecos na minha cabeça.
Mas vejo que para vocês nem mais ecos são, nem ecos! De verdade, esqueçam-me, se lembrarem de mim. Se. Escrevo para enterrar. Enterrar as lembranças, as histórias, os papéis. Este daqui vai ser enterrado junto, não quero guardar a revolta. Escrevo para que vocês a vejam, mas não verão, eu sei. Vocês não me veem. É só uma esperança boba. Tantas já sumiram que, acreditem, mais uma não fará diferença.
Desculpem-me, desculpem-me por ter cometido o erro de me prender ao passado, achei que poderia ser costurado ao menos ao presente, sonhava que a linha alcançasse o futuro também, queria amarrar tudo junto. Eu errei. Deveria logo ter enterrado tudo, como vocês fizeram, mas carreguei tudo por tantos anos. Agora é tão difícil me desprender desses pensamentos, dessas memórias. Carreguei-as tanto que agora me seguem. Vou enterrá-las.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Fuga

Ele caminha com seu ego de balão, lançando piscadelas para as mais belas bailarinas e elas ficam assim, derretidas com seu charme. Por onde passa leva no rosto um sorriso... O sorriso! Daqueles que a gente fixa o olhar e se esquece de tudo, querendo sugar toda a energia da expressão, querendo sugar a felicidade também, aquela simpatia...

Cada face do salão se volta para o rapaz e absorve a leveza de seus gestos e palavras. Poucos não se impressionaram e se cada pensamento fosse ouvido pelo ego, ele seria capaz de voar até o infinito.
Valsou com as meninas uma a uma. Não preciso dizer que ele as fazia levitar, rodopiando até que elas caíssem em exaustão. Mas ele não. Dançou com a última dama e ainda poderia honrar outras tantas.
As noites passam e eu as observo. As pessoas são sempre diferentes, mas ele está sempre aqui, encantando e rodopiando. A música está sempre aqui também, e eu a acompanho com a batuta nos dedos. Mas não posso deixar de acompanha-lo com os olhos.
Todos temos defeitos e eu buscava os dele. Nem precisei de tantas noites para perceber que tudo estava errado. Ele estava errado. Não era mais que uma máscara. Uma bela máscara cravejada com alegria, cavalheirismo e muita sedução.

Se está sempre no meu salão, está nunca em sua casa. Falta nos jantares em família, foge das brigas e das obrigações. Vem porque talvez não seja tão admirado pelos que o cercam, porque lá ele não rouba a atenção de todos. Vem por rebeldia, para fazer falta. Vem para se divertir enquanto deixa para trás rugas e decepção.

Ainda tem coragem de vestir na face tamanho contraste!

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Tudo isso

Quem sou eu para julgar o certo e o errado? Incrível, o faço todo o tempo. Não deveria, sou aquela que está lá, olhando sem viver, sem sentir. Pessoas assim não podem julgar.

Mas isso tudo me corrói, enquanto os outros não percebem, tudo tão usual para eles! Às vezes penso que sou eu a inocente, ou talvez use tanto esse papel que quando não o tenho, aqueles o são muito mais.

Deixo a imagem lhe parecer inexistente, não gostaria que a visse. Apenas ouça o som das palavras, e deixe-me tecer o minueto, sozinha mesmo.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Pela Janela

Ela abandonou tudo mais uma vez e mais uma vez volta arrependida. Fácil fugir, esquecer e depois retornar com um sorriso idiota. Não pense que as melodias a deixaram. Ela que deixou as melodias.
Ela... Obviamente falo da maestrina! Pela janela vi tantas partituras pelo chão, elas chamavam por um toque, mas a compositora não estava lá, claro que não. Correra para longe, para o horizonte, deixara o Castelo para perder o brilho, os papéis para amarelar e as lembranças, deixara as lembranças!
Tento imaginar o que supera ter uma orquestra inteira atenta a sua mão, esperando o mínimo movimento para soltar a primeira nota. O que supera?
Não sei, mas ao caminhar pela noite encontrei o som suave de uma flauta e tenho certeza de onde vinha.
Ela voltou para, quem sabe, correr mais uma vez.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Tec-Tec

"Eles estão em todos os cantos, acompanham meus passos silenciosamente. Pensam que eu não os ouço. É verdade. Pior do que isso, eu os sinto. Sei que estão lá, me vigiando, observando os meus passos, ouvindo atentamente o "tec-tec" do meu salto fazendo eco na rua vazia, coberta pela noite. Tenho a sensação de que eles conseguem até ouvir o meu coração bater acelerado."Eu ia deixar essas palavras fazerem parte do minueto um dia... Um dia. Para mim parece que faz tanto tempo, já se passaram tantas tardes depois daquela. Mas hoje mesmo resgatei do fundo da gaveta esse papel, com letras apressadas, uma grafia tremida.Não era medo, era sufoco, aperto, eu não podia respirar. Encontrei aqueles olhos novamente. Era tudo o que eu temia, deles eu fugia constantemente, mas sabia, era inevitável.Não gosto disso. Não gosto do destino, que palavra forte essa. Destino. Tão determinada, poderia mudar qualquer coisa. Já tentei lutar contra ele, mas é covarde demais para aceitar meus desafios, covarde demais para olhar nos meus olhos.Talvez ele aceite um convite para o baile de máscaras, então planejarei um duelo. O duelo entre o Destino e a Maestrina.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Passos



Eu deixo algumas falas bobas ficarem na minha cabeça. Eu sempre penso em coisas que eu nunca mais quero esquecer, mas na verdade depois de um tempo eu tento me lembrar novamente da sensação e a perco. Alguém me disse um dia com palavras sábias: "eu só não quero ficar velha e não saber mais de como eu era". Ela, assim como eu, se achava muito adulta, mas na verdade, hoje eu vejo que nós eramos crianças que queriam parecer crescidas.
Eu lembro de várias falas e pensamentos ridículos, de ações toscas, de erros cometidos. Agora eu rio de tudo isso. E depois eu ainda vou rir de todas essas palavras, e vou escrever novas e vou rir delas de novo.
Mesmo assim alguns detalhes escapam. Assim como algumas pessoas também, dão passos silenciosos, abrem a porta e saem de fininho da memória. Eu tenho medo disso. Existem tantas coisas que sabemos que são eternas, mas não é por elas que eu temo. Temo pelas que por mais que eu tente me enganar, dizendo que vai ser para sempre, fazendo juras tão sinceras, que na verdade são falsas.
E daqui a um tempo eu vou ler este texto de novo e já vou ter me esquecido das entrelinhas.
Tão discreto.

segunda-feira, 3 de março de 2008

A máscara, o minueto e a ampulheta

Hoje tomei aquele banho que lava a alma, sentia a água entrando, me lavando por dentro, limpando a minha consciência. Deixei que as lágrimas corressem para as deixar no ralo, "que elas nunca mais voltem", pensei. Mas é sempre assim, penso que é a última lágrima, quando na verdade tem tantas outras para escorregar dos olhos.
Hoje não coloquei maquiagem, não teve olhos pintados, nem sequer lábios tingidos. Não quero mais verstir a minha máscara, não quero mais fazer parte do espetáculo, já estou cansada deste disfarce, de tudo tão irônico. O problema é que as pessoas gostam da minha maquiagem e da minha fantasia.

E enquanto elas aplaudem o show, enquanto elas gritam juntas, enquanto todas elas correm no mesmo sentido para não trombar, enquanto elas riem e falam alto, eu simplesmente assisto, eu observo, parada. Às vezes sorrio ou aceno. Mas entenda que eu não sou uma garota de palavras. Acho que elas simplesmente não gostam de pular da minha boca, entenda.



Entender... não, você não me entende. Eu sei que você não vem aqui para compartilhar os meus pensamentos, também não precisa, é inútil. São apenas idéias incompletas e vagas ou sentimentos transformados em parágrafos, vírgulas e pontos, é apenas o meu minueto, onde eu gosto de reger. Não precisa bailar, pode ficar só olhando. Não precisa seguir o mesmo compasso. A única coisa que eu te peço é para que uma vez você pare de olhar as lindas dançarinas e ouça o que eu estou tocando. Só uma vez.



Só não se esqueça de olhar a ampulheta, quando o último grão de areia cai e quando a noite vira dia, a música desaparece, assim como todos os convidados no castelo de prata.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Por Dentro

É esse ódio, monstro que desperta quando dá vontade, me consome.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

O Novo Começo

Sentada na cadeira do salão observava cada traço do rosto combinando com o cabelo comprido, recém lavado.



- Pode cortar tudo. - Reunira tanta coragem e fôlego para dizer as três palavras que elas saíram mais alto do que o esperado.



- Que?! TUDO?



- É, até aqui. - A garota indicou a altura do pescoço.



A cliente dos olhos esbugalhados tentava impedir, mas a menina estava mais do que decidida.



Deu para sentir a tesoura. Até parecia fácil tirar todo aquele pedaço de vida, mas cada tufo que caia no chão a aliviava mais, parecia que ela ia ficando mais leve.



Chegando em casa a irmã lhe abraçou, dizendo que estava fofinha.



A mãe,ao ver, deixou que seus olhos se enxessem de lágrimas.



- Minha filha! De moça viraste menina de novo!



Acabou.