domingo, 23 de março de 2008

O Tesouro do Rei

Centenas de anos se passam, mas ele continua lá, esquecido, largado, ninguém o vê, ninguém o toca.
No fundo do oceano, tudo escuro, tudo frio, parado. Já fora uma peça bonita, pessoas o cobiçaram. Era tão importante, agora era um simples nada.
Consigo imaginar a realeza tocando o tesouro, os reis com as taças de prata e as rainhas com jóias e coroas reluzindo, as princesas bailando com seus príncipes encantados e vestidos bordados com fios de ouro puro.
E agora, largado em companhia das cracas.
Talvez tenha que esperar eternamente até que sinta o calor humano novamente.
Como será que deve ser? Ver os anos passarem lentamente sem poder fazer nada, sem sentir na pele o sol, nem sequer a chuva. Ninguém lembra mais seu nome, já virou lenda.
E como seria se finalmente, depois de todas essas centenas, depois de já ter se entregado à escuridão, depois de já ter se acostumado a estar sozinho, de repente visse uma mão estendida pronta para alisar suas faces novamente? Sentiria medo? Ser levado novamente para a superfície e ver que tudo está mudado, que nada é igual a antes, que sonhara tanto com seu retorno em vão.
Não, essa idéia não me agrada. Prefiro um tesouro abandonado no meio do oceano para sempre, condenado a passar os séculos olhando para o imenso azul sem fim.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Sobre o Mestre dos Oceanos

Eu o vejo. Vejo suas velas acompanhando o compasso do vento. Também vejo as ondas batendo no casco da caravela, e como que ele acompanha o balançar de sua embarcação, dançando com ela, fazendo parte dela. Com um sorriso pirado na face, estufa o peito e sente a brisa marítima tocar a sua pele e bagunçar o cabelo já desgrenhado por baixo do chapéu de capitão, sorri mais ainda quando a brisa acompanha a água salgada. Ele a ouve. Tenho certeza. Ele ouve a canção que as ondas tocam, sabe apreciar as notas que delas saem.



É assim que o vejo. E se pudesse, faria o trabalho dos marujos também. Do topo da gávea observaria o azul marinho infinito, hastearia todas as velas, remaria até que os músculos se cansassem sob o olhar da noite, traçaria rotas, olharia através da luneta o que tivesse que ser visto, procuraria as estrelas em busca da direção certa.



E para sempre ele vai ser assim. Sem preocupações, sem compromissos, sem destino, sem futuro, apenas ele. Ele e a grande caravela. Ele e o vento. Ele e seus pensamentos. Ele e a canção do mar.



É apenas disso que ele precisa, apenas disso que ele vive. Um dia após o outro, ás vezes permite se deixar levar pela maré. Não precisa de mapas, já conhece cada milha de água que corre neste mundo. Ele já me disse. Quando o vento não mais bater por ele, quando o leme não obedecer mais seus caprichos, quando seus olhos não mais enxergarem a "terra a vista", quando seus dedos não mais conseguirem manejar as cordas, quer que seu coração parta para aventuras do outro mundo juntamente com sua embarcação em chamas e como um corpo só, se entregarão inteiramente a o que sempre serviram: o mar.

segunda-feira, 3 de março de 2008

A máscara, o minueto e a ampulheta

Hoje tomei aquele banho que lava a alma, sentia a água entrando, me lavando por dentro, limpando a minha consciência. Deixei que as lágrimas corressem para as deixar no ralo, "que elas nunca mais voltem", pensei. Mas é sempre assim, penso que é a última lágrima, quando na verdade tem tantas outras para escorregar dos olhos.
Hoje não coloquei maquiagem, não teve olhos pintados, nem sequer lábios tingidos. Não quero mais verstir a minha máscara, não quero mais fazer parte do espetáculo, já estou cansada deste disfarce, de tudo tão irônico. O problema é que as pessoas gostam da minha maquiagem e da minha fantasia.

E enquanto elas aplaudem o show, enquanto elas gritam juntas, enquanto todas elas correm no mesmo sentido para não trombar, enquanto elas riem e falam alto, eu simplesmente assisto, eu observo, parada. Às vezes sorrio ou aceno. Mas entenda que eu não sou uma garota de palavras. Acho que elas simplesmente não gostam de pular da minha boca, entenda.



Entender... não, você não me entende. Eu sei que você não vem aqui para compartilhar os meus pensamentos, também não precisa, é inútil. São apenas idéias incompletas e vagas ou sentimentos transformados em parágrafos, vírgulas e pontos, é apenas o meu minueto, onde eu gosto de reger. Não precisa bailar, pode ficar só olhando. Não precisa seguir o mesmo compasso. A única coisa que eu te peço é para que uma vez você pare de olhar as lindas dançarinas e ouça o que eu estou tocando. Só uma vez.



Só não se esqueça de olhar a ampulheta, quando o último grão de areia cai e quando a noite vira dia, a música desaparece, assim como todos os convidados no castelo de prata.