sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Como Mágica

Pode parecer bobo, mas o som ainda toca alto na minha cabeça, ainda sinto aquela vibração, aquele suor escorrendo pelo rosto, se unindo às outras gotas em minha camiseta, todas aquelas pessoas compactadas para enxergar melhor, a falta de ar, o braço esticado incansável, os pés saltando conforme o coração mandava, a sede que me matava e aumentava a cada palavra que saída da boca. A garganta protestava, mas eu não parava de cantar, simplesmente não dava. Era bom de mais para parar, como um vício.
Mas já passou, agora parece um sonho que surge de novo todas as vezes que pisco os olhos. Agora todas as noites parecem sem-graça. Como se faltasse alguma coisa a mais, como se eu estivesse dependente daquele momento. Parece loucura, mas aquela “muvuca”, aquele aperto, a mistura de suor, o braço suado roçando no cabelo dos outros loucos, era tudo muito mágico.
E como mágica, já sumiu.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

O Castelo Tosco

O encanto. É incrível, tão... sedutor é a palavra. O reflexo é perfeito, acompanha cada traço, cada marca, a sombra. Eu diria que poderia ser até mágico .

Segui o contorno com a ponta do dedo - o esmalte com glitter roxo já estava descascando. Apesar da imagem ser impecavelmente real, tudo era tão mais brilhante!



Foi então que eu pensei ter compreendido: as pessoas não ficam horas na frente dele simplesmente para se olhar, mas sim porque estão enfeitiçadas pela superficíe prateada.



As mulheres então penteam os longos cabelos, os homens se observam com faces de galãs. Tudo se encaixa. Eles estão apenas se preparando para a grande festa no castelo de prata que há lá dentro do espelho,a lua dando brilho ás torres, os detalhes de cristal, as belas bailarinas, os flautistas, os violinistas, gostaria de acreditar que eles tocavam um minueto.



Fiquei imaginando talvez uma festa de máscaras. Elas sempre parecem tão legais. Me aproximei de mim mesma, tentando enxergar através. Tingi meus lábios de vermelho, passei meu dedo neles e observei a cor de sangue. Era uma cor perfeita para a ocasião. Me aproximei mais ainda de mim mesma, de modo que meu nariz quase tocasse no outro. Com a mão trêmula fiz com que o rímel tocasse os meus cílios, chamando-os para a festa também. O rouge corou minhas bochechas e a escova ajeitou meus cabelos - até então bagunçados.



Um calafrio percorreu meu corpo. Então era isso, eu estava preparada. Não sabia dançar um minueto, normalmente eu que o regia, mas tudo bem. Parecia que quando eu chegasse lá saberia o que fazer.



Me posicionei. Talvez eu devesse correr, mas correr é muito rápido. Queria sentir devagar a sensação de atravessá-lo. Estiquei o meu braço, fazendo com que a minha mão quase tocasse o objeto misterioso. Respirei e toquei a camada gelada de prata. Era agora, o momento em que ele de repente se tornaria líqüido, penetrável. Mas depois de um tempo reparei. Estava sólido. O sorriso se apagou. Era óbvio que estava.



Pensei comigo mesma que já era hora de parar de fantasiar. Parar de achar que tudo o que é simples poderia ser alguma coisa a mais. Eu só queria dar um tom de importância em algo tão tosco.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Por Dentro

É esse ódio, monstro que desperta quando dá vontade, me consome.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

A Nova Estória

O mar parecia não ter mais fim. Turbilhões e rodopios obedeciam os caprichos do oceano. A morte trabalharia junto, responsável pelo desespero, pelo queimar dos pulmões, que guardavam o último resquício de oxigênio como se fosse o mais valioso tesouro, na esperança de finalmente alcançar a superfície.



As ondas arrastavam o corpo que boiava inerte. Cada músculo oferecia dor, parecia impossível mover um nervo. A minúscula quantidade de ar que conseguia entrar, arrastava o sal ardente consigo. Tudo pessava, mas mesmo assim a água do mar tão traiçoeira conseguia conduzi-lo até suas faces sentirem pequenos grãos que afundavam conforme o corpo balançava para frente e para trás quando as ondas quebradas encontravam o sol.



A tentativa de abrir os olhos foi um fracasso. Talvez não estivesse preparado para ver. Ouvir sim lhe provocou algum interesse. O barulho do mar, agora tão calmo, era profundo: lembrava o estômago vazio de uma fera roncando. Gaivotas gritavam, acompanhando os uivos do vento.



Os olhos, de um azul quase branco, abriram com relutância, acostumados à escuridão do fundo do mar. Ao encontrar o sol o homem fez um ruído - uma espécie de grunho - e semicerrou os olhos para enxergar melhor

sábado, 2 de fevereiro de 2008

O Novo Começo

Sentada na cadeira do salão observava cada traço do rosto combinando com o cabelo comprido, recém lavado.



- Pode cortar tudo. - Reunira tanta coragem e fôlego para dizer as três palavras que elas saíram mais alto do que o esperado.



- Que?! TUDO?



- É, até aqui. - A garota indicou a altura do pescoço.



A cliente dos olhos esbugalhados tentava impedir, mas a menina estava mais do que decidida.



Deu para sentir a tesoura. Até parecia fácil tirar todo aquele pedaço de vida, mas cada tufo que caia no chão a aliviava mais, parecia que ela ia ficando mais leve.



Chegando em casa a irmã lhe abraçou, dizendo que estava fofinha.



A mãe,ao ver, deixou que seus olhos se enxessem de lágrimas.



- Minha filha! De moça viraste menina de novo!



Acabou.