quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A Fita Rebobinada

Se você me da licença, meu personagem de hoje é masculino. Coloco nele toda a inocência, todas as dúvidas e todas as fantasias. Veja, essa característica é importante: o personagem questiona a vida com tanta inocência que para ele o óbvio é surreal aos olhos da gente grande. Vou parar de chama-lo de personagem, assim parece um instrumento. Não, ele tem vida. Felipe.
Quanto ao cenário... preciso de uma sala de estar com um tapete grande no chão. Lembrando que grande é relativo. Para a criança da história era grande, como tudo na sala. A televisão quase ocupava a parede inteira sobre o armário que por vezes era escalado numa aventura. O sofá tinha enormes botões no centro de cada almofada. Bom, isso pouco importa, vamos à ação.
Deitado sobre uma pilha de fitas de vídeo, Felipe terminava de assistir “O Rei Leão”. Logo que as letrinhas começavam a passar na tela, ele se esticava para rebobinar. Odiava rebobinar, mas era um momento solene, via o Simba deixar de dar o rugido, desistir da caminhada pomposa sobre a Pedra do Rei. Tudo caminhava para trás, as palavras deixavam de ser ditas, Timão e Pumba saíam de cena, Mufasa deixava de estar morto. O menino baixava os olhos da tela para coloca-los nos números. O tempo corria para trás, até os bichos se recolherem e o sol desaparecer. 00:00:00.
Se quisesse acelerar, também podia, assim pulava as partes chatas. Tirou a fita de vídeo e ficou olhando para dentro do buraco. Talvez pudesse fazer da sua própria vida uma fita. Se a colocasse lá dentro, poderia acelerar, poderia ver como seria depois que crescesse. E depois disso, se tudo ficasse chato, se a saudade batesse (como muito viu acontecer com seus pais), poderia rebobinar tudo de novo.
00:00:00.



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Mamãe-filhinha

Mamãe-filhinha é uma brincadeira simples onde uma criança atua como mamãe e outra como filhinha. Simples. Era a minha favorita. Minha irmã mais velha não gostava muito, mas era sempre a minha dupla e depois que a brincadeira começava não fazia mais diferença.
Não lembro direito do começo das nossas histórias, tampoco do desenrolar delas. Sei que o enredo era muito bem discutido como se estivéssemos realmente traçando o destino de duas pessoas. Tão fácil era mandar e desmandar naquelas vidas marionetes das nossas personagens.
O que eu lembro e lembro muito bem é do desfecho. Este era preparado com muita cautela, sempre exatamente da mesma forma. Era o elemento crucial na nossa brincadeira. Le grand finale: uma das duas fazia o papel de médico e decidia que ou a mamãe ou a filhinha tinha que morrer na cadeira elétrica. Isso era essencial. E quem restava sozinha, num final trágico sentava na cadeira e começava a se debater em choques até que caísse morta, junto do outro corpo. Terminava então com os dois corpos caídos no chão. FIM

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

À Espera

Seria mais fácil ter nascido planta. Crescido árvore. Morrer terra.
Ser gente é complicado. O grande objetivo da natureza – a propagação da espécie – é um mero complemento, para alguns, um inconveniente. Importante mesmo é não apenas atender às vontades individuais, mas principalmente responder às expectativas de toda a gente.
Quando digo gente, digo toda a sociedade, partindo do mundo todo, reduzindo a um país, uma região, uma classe social, uma família, um lar.
Quem nasce já ganha um nome, uma cor e um brinquedo. E antes ainda de nascer, os pais já esperam que seus filhos sejam fisicamente saudáveis, esperam às vezes já algumas qualidades. Que eles gostem de ler, que eles sejam lindos, que gostem de estudar, que sejam aventureiros, que gostem de esportes...
É assim o tempo todo. Claro que se pode escolher, sempre temos escolhas. Aliás, é tão bonitinho quando ele fala que não gosta de carrinhos, só de caminhãozinho...
Somos diferentes, é óbvio que somos. Mas não muito. Tem aqueles que atendem a todas as expectativas, tem uns que vão além, e tem aqueles que decepcionam, ultrapassam o limite incerto entre ser diferente dentro da “normalidade” e ser diferente de maneira incômoda.
É assim que as pessoas julgam umas às outras. Eu faço muito disso também, sempre na verdade. Esperam bastante de mim. Eu também espero dos outros.
Esperaram que eu fosse uma menininha... Como as pessoas dizem?... “de família”. Esperaram que eu fizesse direito para ser juíza. Esperaram que eu gostasse de estudar. Esperaram que eu fosse heterossexual – que alívio quando trouxe o meu primeiro namoradinho para casa. Esperaram que eu fosse sempre muito educada. Ah, mas lembro muito bem que na quarta série esperaram que eu fosse o futuro. É uma grande responsabilidade para a gente de 9 anos... À espera... Esperam ainda que eu me forme doutora. Esperam que eu me case e tenha filhos correndo pela minha casa. Esperam que eu seja muito bem sucedida. E, por fim, esperam que eu morra uma velhinha generosa, humilde e ainda assim com o status de quem agrada à espera.
Nascer gente. Crescer gente. Morrer gente.
Seria mais fácil ter nascido planta.